Soberania digital como “serviço” é a nova estratégia ideológica das big techs

por Fabricio Solagna em 26 de novembro de 2025, Comentários desativados em Soberania digital como “serviço” é a nova estratégia ideológica das big techs

Imagine a soberania, algo tão importante politicamente para países e comunidades, transformar-se em um produto vendido na prateleira. Nos últimos anos, as maiores big techs passaram a oferecer “soberania como serviço”, ou seja, incorporada ao seu portfólio, sobretudo para governos e para o setor público. Microsoft, Amazon e Google entraram nessa disputa motivadas principalmente pelas novas regras e legislações europeias, mas já revendem esses serviços em todos os continentes.

Imagem gerada por inteligência artificial generativa utilizando palavras-chave: soberania, sul global, big techs, amazon, microsoft, google

Embora o termo “soberania digital” seja polissêmico, ainda em construção, sua origem tem como princípio político a autodeterminação coletiva e não sua transformação numa mercadoria. A proposta das big techs é uma jogada comercial, projetada para esvaziar o debate e revela que estão estrategicamente cooptando e redefinindo o conceito para preservar seus domínios.

É assim que avaliam os pesquisadores Rafael Grohmann, da Universidade de Toronto, no Canadá, e Alexandre Costa Barbosa, da Universidade das Artes de Berlim, na Alemanha, no artigo “Sovereignty-as-a-service: How big tech companies co-opt and redefines digital sovereignty”, publicado no periódico Media, Culture & Society.

Eles analisaram os materiais oficiais publicados nos sites de cada empresa, incluindo anúncios, posts e descrições de produtos das três big techs e concluíram que a iniciativa das poderosas empresas de tecnologia busca “atualizar a ideologia do Vale do Silício (…) apropriando-se e esvaziando os significados de conceitos-chave emergentes da sociedade civil”. Seria uma versão 2.0 da “ideologia californiana”, termo cunhado nos anos 1990 por Richard Barbrook e Andy Cameron.

A Amazon foi a primeira a lançar seu produto como um “compromisso de soberania digital” com o programa “Digital Sovereignty Pledge”, na qual se posiciona como uma facilitadora para que os clientes atendam aos requisitos relacionados à soberania. A soberania aqui é tratada como um processo de gestão corporativa.

Em seguida veio a Microsoft com o “Microsoft Cloud for Sovereignty”, associado ao seu produto de nuvem pública Azure, que sugere que os Estados nacionais podem contar com ela para se tornarem mais soberanos. A empresa faz questão de enfatizar que os dados estarão sendo regidos pelas legislações locais dos países de origem, mesmo estando na infraestrutura da multinacional.

Por fim, a terceira a lançar iniciativas nesse sentido foi o Google/Alphabet, com o chamado “Digital Sovereignty Explorer”. O seu produto é, basicamente, a possibilidade de explorar relatórios de compatibilidade recomendando os serviços do Google Cloud mais adequados para as instituições. A soberania digital aqui se transforma em uma consultoria para melhor escolher os produtos e serviços da empresa.

É possível perceber, pela análise dos autores, uma inversão lógica. Ao oferecer soberania como serviço ou ferramenta técnica, há uma deturpação do sentido de soberania exercida por uma comunidade em seus territórios.

Ao vender “nuvens soberanas”, as empresas garantem que os Estados permaneçam dependentes de suas infraestruturas globais e permitem que os governos mantenham um discurso público de soberania digital. O Brasil é citado como um exemplo, pois promove um forte discurso de soberania ao mesmo tempo em que adquire serviços da “nuvem soberana” da Amazon.

Os autores concluem com um apelo para que diferentes atores da sociedade se envolvam em um diálogo sobre como disputar politicamente o conceito de soberania digital e destacam o potencial de se fazer um debate “de baixo para cima”, citando o caso do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) no Brasil.

A grande questão não é apenas quem controla a nuvem, mas quem controla o próprio significado de soberania digital. Há um adágio que diz que nuvem nada mais é do que vários computadores ligados em algum lugar. Tecnicamente é um pouco mais complexo, com diversas camadas lógicas envolvidas. Mas o essencial do ditado é pensar em quem está controlando esses computadores. A soberania digital passa por camadas técnicas, de infraestrutura e políticas, incluindo responsabilidade e autonomia tecnológica das comunidades e/ou países.

Os estudos sobre soberania digital se encaixam no eixo de pesquisa que o OplanoB classifica como “capitalismo de vigilância no Sul Global”. Esse eixo foca na análise da centralidade econômica e nas particularidades locais da vigilância no Sul Global. A disputa política por soberania digital remete ao embate do imperialismo das big techs, revestido por um verniz tecnológico, sobre a apropriação da riqueza dos países e das comunidades para dentro dos seus cercados.

Para ler o artigo: https://doi.org/10.1177/01634437251395003

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).

Superexploração e uberização na América Latina

por Fabricio Solagna em 16 de novembro de 2025, Comentários desativados em Superexploração e uberização na América Latina

Quando se trata das transformações do trabalho causadas em função da introdução das big techs, logo vem à mente a chamada uberização.

Contudo, ela não acontece de forma igual em todo lugar, especialmente no Sul Global. Por aqui, ela se combinou e se ressignificou com outras formas existentes de trabalho precário, instáveis, que já estavam à margem da economia formal. Há uma incorporação desigual do trabalho no capitalismo de plataforma em escala global, que, em última análise, até proporcionou alguma formalização, mas não com menos exploração.

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É o que o pesquisador Federico De Stavola, da Universidade de Bérgamo, na Itália, chamou de “uberização diferencial” no artigo “Labour super-exploitation in differential uberisation: A Latin American perspective on the platform economy”, publicado no periódico Platforms & Society.

O estudo usa uma abordagem crítica do pensamento latino-americano, fazendo referência ao teórico brasileiro Rui Mauro Marini. Diferentemente do Norte Global, onde a uberização contribui para a erosão das proteções trabalhistas, no Sul ela tende, até de certa forma contraditória, a trazer alguma previsibilidade às condições de trabalho pré-existentes, intensificando a superexploração do trabalho e a produção de mais-valor. A diferença é que as plataformas teriam trazido uma aparência de modernidade e de suposta autonomia.

A pesquisa de campo decorre de uma etnografia entre entregadores por aplicativo na Cidade do México e, complementarmente, em Buenos Aires e Bolonha, entre 2018 e 2023. “Buenos Aires aprimorou a análise da dinâmica regional, enquanto Bolonha, como um local não pertencente ao Sul Global, ilustrou como as economias de plataforma se adaptam a diferentes condições estruturais”, segundo o autor. Na pesquisa, foram entrevistados trabalhadores entre 20 e 50 anos que exerciam uma jornada exaustiva, de cerca de 9 horas por dia em até 7 dias por semana. A vivência em campo foi fundamental e teve que ser adaptada às condições apresentadas durante a pandemia global. É nesse contexto que De Stavola aprofunda o entendimento sobre a superexploração específica perpetrada pelas big techs.

Para Karl Marx, o pensador clássico da sociologia reconhecido por criar a teoria do valor do capitalismo, para aumentar a extração da mais-valia seria necessário ou aumentar a jornada de trabalho, ou aumentar a produtividade por meio de melhoramentos técnicos. A ideia de superexploração adotada pela teoria da dependência, na qual o autor do artigo se inspira, é mais radical: para aumentar a extração de mais-valia, as empresas pagam ao trabalhador do Sul Global menos do que ele precisa para viver.

Não seria só uma questão de pagar pouco, mas de pagar tão pouco que o dinheiro não cobre o custo necessário para a pessoa continuar sobrevivendo e, portanto, precisa improvisar. Para que esse ciclo se torne viável, é preciso que alguns custos sejam absorvidos pelo trabalhador através da sua precária rede de apoio – como os gastos com saúde, o trabalho doméstico ou a manutenção do seu equipamento de trabalho, por exemplo. “… uma ampla gama de formas heterogêneas de “se virar” permite que a população trabalhadora sobreviva por décadas e organize uma existência econômica viável”, complementa o autor do artigo.

Na era do trabalho em plataformas, há muito trabalho não pago. As horas que o trabalhador precisa ficar disponível para atender ao sorteio do algoritmo não são remuneradas. Mas, além disso, e talvez o que definitivamente personifica a superexploração, há uma transferência de custos das big techs para o trabalhador: os meios de produção atuais – a mochila, a moto, a bicicleta, o celular – são financiados pelos entregadores com seus parcos recursos. Isso ajuda a engordar o lucro da plataforma.

A empresa reduz o que ela gastaria com frota, manutenção, equipamentos, que no jargão marxista é o capital constante, e também economiza em benefícios – seguros, custos indiretos – que fariam parte do capital variável. O lucro aumenta porque os custos da empresa diminuem e quem paga essa conta é o trabalhador.

A parte do dinheiro que deveria ir para o consumo e para a reprodução da vida do trabalhador é desviada para cobrir os custos de capital da plataforma. De Stavola calculou, num exemplo, que só por transferir 10% dos custos a taxa de lucro da plataforma poderia saltar mais de 20%. Um ganho enorme, que está sendo extraído diretamente do patrimônio e do bem-estar do trabalhador.

A superexploração nesse modelo uberizado é particularmente perversa, porque ela consegue extrair valor, não só do tempo que a pessoa está trabalhando ativamente, mas também da sua vida pessoal, do tempo de descanso e cuidado que precisaria para se manter saudável e produtiva. No fim das contas, os trabalhadores acabam subsidiando a sua própria exploração, mesmo em condições já fragilizadas do contexto do Sul Global.

As plataformas de entrega revivem e reconfiguram a extração de mais-valia, transferindo valor das esferas pessoal e reprodutiva dos trabalhadores para o capital. Esse princípio oferece uma compreensão mais ampla de como as tecnologias digitais intensificam e possibilitam novas formas de extração de valor.

Esta pesquisa converge com uma das hipóteses da pesquisa do OplanoB, que explora o Capitalismo de Vigilância no Sul compreendendo as especificidades locais, no Sul, como uma das condições para o desenvolvimento desse regime

Para ler o artigo: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/29768624251338613

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).

Subimperialismo: capitalismo de plataforma na sua versão tropical

por Fabricio Solagna em 20 de outubro de 2025, Comentários desativados em Subimperialismo: capitalismo de plataforma na sua versão tropical

Quando uma startup nacional alcança a classificação de unicórnio, todos comemoram: a imprensa especializada, o governo e, claro, a própria empresa. Essa denominação indica que ela atingiu mais de US$ 1 bilhão em valor de mercado. São poucas que conseguem e se tornam referência para outras iniciantes.

Imagem gerada por inteligência artificial generativa utilizando palavras-chave: ifood, subimperialismo, big techs, sul global

O iFood, plataforma brasileira que iniciou sua atuação no ramo de entrega de comida, alcançou essa marca em 2018 e, desde então, se expandiu – e, recentemente, encerrou – seus negócios para outros países da América Latina. Hoje é considerada uma empresa consolidada no ramo de “foodtech”, com mais de 400 mil entregadores vinculados, competindo com outras gigantes como a UberEats.

Mas ser grande regionalmente, estabelecendo o mesmo modelo de negócio das big techs, também pode dizer mais sobre os países que se colcocam entre as nações hegemônicas do Norte e os países explorados no Sul.

Segundo Kenzo Soares Seto, pesquisador vinculado ao Programa de Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), esse é um papel subimperialista, uma posição intermediária e de relevância regional. Esta afirmação está no artigo “Platform sub-imperialism”, publicado na edição temática Critical Data Studies in Latin America do periódico Big Data & Society.

O trabalho usa os estudos de Ruy Mauro Marini, que analisou o Brasil e a região na década de 1970, e os conjuga com teorias contemporâneas sobre capitalismo de plataforma. A ideia é que, já naquela época, os países latino-americanos se organizavam para garantir a reprodução do capital das nações capitalistas centrais, e que o desenvolvimento desigual de algumas nações regionais — no caso do Brasil — faziam com que procurassem os mercados próximos para se expandir, sem necessariamente rivalizar com os países centrais. Esse fenômeno é que Marini chamou de subimperialismo — industrial, no caso —, alinhado ao entendimento sobre o capitalismo dependente, em ascensão na época.

O subimperialismo de plataformas é percebido por meio de novas evidências. O Brasil concentra os maiores pontos de troca de tráfego de Internet (IX) do continente, possui uma vasta mão de obra qualificada e oferece uma grande infraestrutura digital para armazenamento e tratamento de dados: ativos imprescindíveis para a era digital.

Assim como outras empresas fortes no setor de tecnologia, o iFood se destacou ao assumir um papel de destaque na região. Atualmente, emprega mais de três mil cientistas de dados, investe cerca de 1,5 bilhão de dólares por ano em IA e é o oitavo aplicativo mais baixado do mundo em seu ramo. Isso gera mais de 20 bilhões de registros de dados por mês. Todos esses dados são fornecidos pela própria empresa.

Isso ajuda a revelar certas condições específicas desses tempos de capitalismo de plataforma que funciona no Sul Global. Uma delas é a geopolítica do trabalho. Apesar do avanço de regulações e legislações que outros países alcançaram, a situação para o iFood é confortável, sem a obrigação de vínculos, pagamento de salários fixos ou outras garantias para seus entregadores. Isso aumenta a espoliação do trabalho e permite uma vantagem competitiva frente às outras big techs: seu custo operacional tende a ser menor no Sul Global. Essa característica ajuda a atrair investidores e, assim, expandir ainda mais sua operação, aumentando a proporção da exploração do valor por hora trabalhada.

São Paulo, onde o IFood tem seu datacenter, aparece como o único hub sul-americano entre os 25 principais hubs globais de fluxos de dados, reforçando as bases estruturais do subimperialismo de plataforma do Brasil. No caso específico do IFood, há uma dupla produção de valor pelo trabalho não pago: uma primeira gerada em função da entrega propriamente dita e a segunda a partir da datificação do trabalho, que ajuda a aprimorar rotas, escolher os entregadores e treinar seus algoritmos. O resultado disso é o aprofundamento da superexploração.

A pesquisa aponta que há a necessidade de uma importante reflexão sobre políticas nacionais que visam apoiar “campeãs” ou unicórnios como modelo, ou seja, uma abordagem crítica. A grande questão colocada — ressaltada pela hipótese de pesquisa do OPlanoB — é que o Capitalismo de Vigilância no Sul Global é reproduzido em suas características de exploração e espoliação, não sendo apenas o lugar de extração de valor pelo colonialismo digital. O que não sofre abalo é a superioridade do Norte, nem nas tecnologias e nem no seu modelo econômico de exploração a partir de plataformas.

O autor do artigo, inclusive, reivindica uma abordagem classista e plurinacional para as políticas públicas nacionais regionais, para que o setor não reproduza continuamente o subimperismo entre seus vizinhos. Ao mesmo tempo, o estudo de caso sobre o iFood é intrigante, pois, depois de expandir-se para vários países vizinhos, a empresa foi encerrando os seus negócios nos países latino-americanos para concentrar sua atuação no Brasil, inclusive com novas aquisições locais, o que pode sugerir que as condições em outros países se revelaram menos vantajosas que por aqui.

Para ler o artigo: https://doi.org/10.1177/20539517241249410

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).

Os riscos da ajuda humanitária algoritmizada

por Fabricio Solagna em 2 de outubro de 2025, Comentários desativados em Os riscos da ajuda humanitária algoritmizada

“Com uma pequena ajuda você pode alimentar uma criança”, diz a peça publicitária televisiva de uma ONG internacional, incentivando doações para reforçar sua ação de ajuda humanitária em outro continente. É uma estratégia chamada de “pornografia da pobreza”, criticada desde a década de 1970 pelo “apelo da criança faminta”, mas ainda utilizada eventualmente. Atualmente, as intervenções têm se convertido, em geral, em processos de inclusão e empoderamento dos beneficiários, dentro dos limites possíveis para cada situação.

Imagem gerada por inteligência artificial generativa utilizando palavras-chave: humanitarismo digital, big techs, sul global

Entretanto, esses desafios dependem do mapeamento das necessidades, quantificação das populações e identificação das prioridades. Não é uma tarefa fácil e, muitas vezes, mais difícil que a própria ação de ajudar. É nessa tarefa que empresas e startups de IA têm atuado, vendendo uma imagem de eficiência e resultados, que estão alterando, inclusive, os próprios pilares da ajuda humanitária.

Para tal propósito, esses novos atores utilizam uma série de dados coletados a distância, que vão desde dados geoespaciais até a análise de dados de redes sociais, para construir uma representação do local, fazendo emergir diagnósticos, mas que podem ser facilmente questionáveis em relação aos seus vieses e métodos.

Esse problema foi analisado no artigo “Datafied localization: Reproducing unequal power hierarchies in humanitarianism”, lançado na revista Big Data e Society no número especial “Datafied Development” que examina o desenvolvimento baseado em dados e seus problemas para a promoção de justiça social. O trabalho foi escrito por Maria-Louise Clausen, Adam Moe Fejerskov e Sarah Seddig, todos do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais de Copenhague, na Dinamarca.

Os autores analisaram a atuação de duas empresas específicas: a Premise, estadunidense, e a startup Quilt.AI, com sede em Singapura. Ambas se anunciam como capazes de ajudar nas “tomadas de decisão” por meio de análises preditivas por IA, alcançadas por diagnósticos de cenários interpretados por antropólogos e engenheiros de dados. A missão é “mesclar aprendizagem de máquina com a inteligência cultural humana”. As palavras são realmente bem selecionadas e parecem destacar novas tecnologias em prol do bem-estar humano.

O foco das empresas não é apenas ajuda humanitária. Sua pretensão é compreender públicos, auxiliar marcas e estratégias de negócio, funcionando como plataformas. Mas o que interessa é a maneira como suas metodologias são utilizadas. Elas oferecem serviços de big data para construir geometrias de necessidades e dinâmicas humanitárias a distância, sem a necessidade de contato com lideranças locais ou as dispendiosas e perigosas – nas palavras deles – coletas de dados no local. Os autores chamam esse expediente de “localização baseada em dados”.

Entre seus clientes estão a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Fundação Bill e Melinda Gates, o Banco Mundial, o Fundo Internacional de Emergência para a Infância (UNICEF) e o Fundo para Atividades Populacionais (UNFPA). Ou seja, grandes organizações de alcance global que atuam em diferentes países.

A convergência de avanços técnicos, a IA e a complexidade algorítmica se integra a outra agenda concomitante, que está implicada em um novo paradigma do humanitarismo. Por um lado, há uma necessidade da chamada “localização”, que sugere que a ajuda humanitária se torna mais eficiente e gera melhores resultados quando conta com pessoas mais próximas aos eventos ou conflitos, pois elas compreendem melhor as realidades e as necessidades. Junto a isso, chega a digitalização, o uso de big data, algoritmos e plataformas para supostamente “aprimorar” o trabalho. O chamado “humanitarismo digital” encapsularia novas metodologias de coleta de dados a distância, com capacidades preditivas de “representar” (ou construir) necessidades. Mas, mais do que isso, coloca em xeque a própria agenda de localização, já que essas coletas e análises são feitas remotamente, por corporações estrangeiras, na sua grande maioria oriundas do Norte Global, no Ocidente, que fornecem dados e dashboards para os financiadores tomarem decisões em seus escritórios assépticos, nas suas próprias sedes.

A introdução do humanitarismo digital e sua produção de dados se desdobra em camadas que podem perpetuar antigos problemas e inaugurar outros. Uma delas é a reprodução de hierarquias e a manutenção de práticas neocoloniais, na medida que corporações externas aos territórios são quem analisam e produzem os diagnósticos, sem a participação ou empoderamento dos envolvidos. Outra camada é o caráter de neutralidade desses resultados, como se os dados tivessem em si uma verdade inequívoca, sem questionamento sobre métodos utilizados para produzí-los.

As próprias empresas reconhecem alguns “elefantes na sala”: as IAs são treinadas principalmente em inglês e precisam trabalhar com dados em diferentes idiomas.

Além disso, há problemas metodológicos sérios, que, numa nova roupagem digital, são minorizados. Os autores citam pesquisas da Premise, realizadas na Somalilândia e no México, que utilizaram “amostragem de conveniência”, que, na prática, é uma pesquisa com quem “está disponível”, sem critério de representatividade, sem validade interna ou externa. Para piorar, os recrutados para a pesquisa eram remunerados de maneira granular, ao estilo Amazon Mechanical Turk. Além da validade da amostra e dos complicadores em relação às diferentes habilidades digitais para participar de um levantamento desse tipo, pode-se questionar se essa é uma boa prática de inclusão do público-alvo.

Considerando que esse tipo de consultoria tem sido cada vez mais adotado por grandes agências internacionais e grandes organizações humanitárias, o trabalho levanta uma questão relevante: a título de uma suposta eficiência ou capacidade de acelerar diagnósticos, não se estaria fazendo exatamente o contrário do que os consensos sobre a ajuda humanitária já chegaram nas últimas décadas? Ou seja, a utilização acrítica das metodologias digitais não estaria prejudicando a contextualização e o empoderamento local?

O big data não elimina questões de contextualização, representação e hierarquias de poder(…) A centralização não apenas da tomada de decisões, mas também dos dados que as informam, nos lembra que não é somente uma forma de desterritorialização, mas sim uma ocidentalização.”

O caso dessas empresas também ilustra como o Capitalismo de Vigilância no Sul Global, um dos eixos da pesquisa do OPlanoB, pode ser executado por empresas parceiras da filantropia internacional, que se estruturam como plataformas digitais voltadas a serviços específicos para extração de dados das populações-alvo que necessitam de ajuda humanitária.

Para ler o artigo: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/20539517241304693

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).

Não há almoço grátis, nem benevolência: IA reforça os domínios pós-coloniais

por Fabricio Solagna em 17 de setembro de 2025, Comentários desativados em Não há almoço grátis, nem benevolência: IA reforça os domínios pós-coloniais

A IA é o assunto do momento. Está incorporada nos serviços da internet, de navegadores a até buscadores. Logo não vai ser irreal pensar que, se você comprar uma geladeira, ela poderá vir com alguma IA incorporada.

Essa característica cada vez mais abrangente da IA pode ajudar a compreender como ela está reestruturando – ou intensificando – todas as dimensões da economia global, principalmente suas assimetrias.

Kai-Hsin Hung, pesquisador da Universidade HEC Montreal, no Canadá, propõe mapear a colonialidade do poder da IA no recente artigo “Artificial intelligence as planetary assemblages of coloniality: The new power architecture driving a tiered global data economy”, lançado na revista Big Data e Society.

O trabalho propõe analisar o cenário por meio de três camadas. A primeira corresponderia o nível global, sobre a nova bipolaridade das corporações digitais sino-americanas. No nível intermediário estariam as políticas industriais nacionais que financiam, desenham e desenvolvem mercados e talentos para se integrarem competitivamente às novas cadeias de valor. No último nível estariam os trabalhadores e usuários que, por meio da IA, impulsionam ainda mais a extração de valor de si próprios.

Imagem utilizada anteriormente pela Agência Brasil

O desafio teórico é pensar a IA em uma estrutura pós-colonial, como ela reproduz dependências ao constituir e estruturar uma arquitetura de poder desigual, que impulsiona uma economia que depende cada vez mais de extração de dados.

Para pensar as assimetrias globais, Hung apresenta evidências importantes: das cem maiores corporações digitais, 90% são norte-americanas ou chinesas, sobra só 10% para o resto do mundo. E mesmo entre os dois países líderes, a assimetria é gigante: enquanto as ocidentais Microsoft, Apple, NVIDIA, Alphabet , Meta e Amazon detém 70% do valor de mercado, do outro lado do mundo as corporações Baidu, ByteDance, Alibaba, Tencent, Xiaomi representam apenas 20%.

Essas empresas arquitetariam um poder global que envolve desde infraestruturas (cabos, satélites etc), padrões (hardware e software) e até os meios de governança. As elites desta camada provocam dependências e gargalos que condicionam a extração de recursos e valor do resto do mundo.

Na camada intermediária é onde figuram as políticas industriais dos países e onde se revelam as dependências horizontais. Mas mesmo nesse nível há diferenças visíveis: o autor usa como exemplo a Índia e o Canadá.

Enquanto a Índia adotou uma estratégia mais mecanicista de promover seu mercado de IA, apostando em produtos de menor valor agregado, como anotação de dados, o Canadá se posicionou como um aliado dos países do Atlântico Norte, investindo em pesquisas e desenvolvimento de produtos. Enquanto a Índia se reivindica ser a “garagem da IA” para o Sul Global, o Canadá alça vôos em modelos de linguagem para o ramo.

Na última camada é onde se desenvolvem as questões de trabalho, se intensificam as estratégias de exploração e extração de valor. É onde o trabalho é menos valorizado e mal distribuído, que acontece, na sua grande maioria, nas periferias econômicas. É nesse nível que as IAs são alimentadas com dados, treinadas a partir do uso intenso dos usuários e os trabalhadores são recrutados para tarefas simples, como anotação ou classificação de dados. “O Sul Global é visto como um mercado emergente para extração de dados dos bilhões mais pobres ou um beneficiário da IA ​​para o bem social”, segundo o autor.

Haveria, portanto, um sistema entrelaçado de poder, verticalmente integrado entre camadas globais, intermediárias e locais, cada uma com suas dependências horizontais, que remodelam geografias, conhecimentos e governam corpos a fim de reforçar estratificações de valor e as lógicas neocoloniais.

A proposta de Hung coloca em evidência a organização e o desenvolvimento da IA a partir de suas dependências entrelaçadas, como um sistema planetário. As análises críticas da tecnologia, portanto, deveriam ir além das dependências mais imediatas – que ele chama de horizontais.

Dentro do contexto da pesquisa sobre o Capitalismo de Vigilância no Sul Global, um dos eixos que orientam a pesquisa bibliográfica deste OPlanoB, isso ajuda a pensar nas articulações de dominação, em diferentes níveis, que envolvem todo o desenvolvimento de políticas, tecnologias e de trabalho sobre a IA. O autor do artigo traz uma contribuição metodológica relevante propondo interpretar as questões de poder e dominação a partir um sistema orbital, envolvendo diversas camadas. Assim, fica mais evidente que políticas nacionais ou desenvolvimentos locais não brotam espontaneamente, nem tampouco são meras reproduções de países centrais. Ao mesmo tempo, colocar a China como um polo importante de convecção pode abrir uma série de outras questões para compreender as assimetrias internas ao Sul Global.

Para ler mais: https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/20539517241289443

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).

Resistência política na sociedade comandada por algoritmos

por Fabricio Solagna em 4 de setembro de 2025, Comentários desativados em Resistência política na sociedade comandada por algoritmos

Atualmente, os algoritmos estão em toda parte: quando definimos um alarme para acordar, quando rolamos a timeline da rede social ou quando contratamos um seguro, sempre há algoritmos operando.

Eles são um elemento fundamental para a computação, semelhantes a uma receita de bolo no mundo digital, contendo detalhes e os passos para resolver um problema ou executar uma tarefa.

Mas esses artefatos também podem modular nossos comportamentos. Em tempos de IA, eles exercem cada vez mais poder sobre a sociedade.

Se, por um lado, os algoritmos parecem inevitáveis, por outro, haveria formas de resistir? Ou seja, há como ser menos influenciado por eles sem significar travar uma guerra contra a Skynet, a IA retratada no filme “O Exterminador do Futuro”.

Imagem gerada por inteligência artificial generativa utilizando palavras-chave: skynet, resistência

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal de Goiás (UFG) consideram que a resistência ao poder dos algoritmos pode adquirir uma característica política em nosso tempo.

Os professores Ricardo Fabrino Mendonça, Fernando Filgueiras e Virgílio Almeida publicaram recentemente o artigo “Algoritmos, desidentificação e infrapolítica da resistência” na Revista Revista Brasileira de Ciência Política, abordando formas dessa resistência ou de ressignificação.

Uma das formas, chamada de infrapolítica, seria a ação menos visível, ou não necessariamente de enfrentamento. Esse expediente seria utilizado quando a resistência não pode ser pública, ou pode ser perigosa, ou oferecer riscos.

As resistências também podem se basear em “práticas cotidianas” que desafiam o que é esperado pela norma, na qual as pessoas jogam conscientemente com os algoritmos, tentando subvertê-los. Fazem isso racionalmente, encontrando brechas e maneiras de obter resultados não esperados a partir de interações não convencionais.

Por fim, outra camada abordada pelos autores se trata da “desidentificação”. Este tipo opera nas margens da reconfiguração de como a sociedade se organiza, transformando as identidades. No contexto dos algoritmos, uma das formas é dificultar ou atrapalhar as formas de perfilamento — a classificação das pessoas a partir de suas características no utilização das plataformas.

As ações de “desidentificação” são bastante utilizadas e já fazem parte do repertório político da nossa sociedade. Uma delas é a anonimização, que pode ocorrer por meio de sistemas de criptografia — que embaralham a informação ao circular nas redes e só podem ser decodificados pelo receptor da mensagem — ou por métodos mais simples, como a atitude de desabilitar cookies no navegador ou navegar no modo anônimo. Outra alternativa é usar endereços da chamada Dark Web, uma rede que permite a navegação por sites não públicos acessíveis apenas por programas específicos na rede Onion.

Maneiras mais explícitas de “desidenficação” de sistemas biométricos provocam o “engano” do algoritmo. Numa sociedade rodeada de sensores, utilizar máscaras para impedir a identificação nas câmeras espalhadas pelas ruas ou aglomerar celulares em um local, como forma de desorganizar o tráfego urbano pelo sinal do GPS, são formas de ativismo político atuais.

Há formas sutis e cotidianas de provocar o engano: muitos usuários preferem usar um emoji de melancia no lugar da bandeira da Palestina para fugir de possível identificação e moderação pelas plataformas. A melancia remete às cores da bandeira do país e também à produção da fruta na Faixa de Gaza (antes da guerra de 2023). Outra forma é a circulação de mensagens em imagens. É uma técnica bastante utilizada por usuários do WeChat na China para evitar moderação ou censura no aplicativo.

A questão central é que a desidentificação funciona como um contrapoder, justamente porque os algoritmos trabalham na lógica de identificar e categorizar as pessoas, a partir de finalidades programadas previamente. Em meio a esse poder quase totalizante dos algoritmos, é importante pensar que as formas de resistência podem se tornar cada vez mais frequentes, assumindo um papel político como forma de protesto.

Tais formas de resistência podem não ser revolucionárias ou abalar estruturas. Elas podem não ser muito visíveis nem organizadas. Mas apontam para possibilidades de confrontar criativamente as estruturas que delimitam as sociedades contemporâneas, ou seja, uma ordem política dos algoritmos.

Há, obviamente, uma grande desigualdade de poder entre big techs, suas plataformas, seus algoritmos e as possibilidades de resistência das pessoas. Isso é reconhecido e enfatizado pelos autores. Há também inúmeras outras formas de ação e organização política para enfrentar e contestar esse poder, inclusive as maneiras mais institucionais e de mercado. Em muitos momentos, o boicote é reivindicado como forma de se fazer ouvir por quem está no poder. Da mesma forma, batalhar pela construção de uma regulação do setor, visando implementar regras mais justas e equilibradas, é um tipo de ação política cujo objetivo é construir horizonte mais justo.

A grande questão levantada pelo trabalho é reconhecer, dentro do novo contexto de uma sociedade cada vez mais comandada por algoritmos, que diversas formas de resistência, inclusive as mais sutis e ocultas, fazem parte do cenário do enfrentamento e devem ser consideradas no jogo de embate entre os mais vulneráveis e as grandes corporações. Como os autores mesmo afirmam: “reiteramos como essas resistências aqui elencadas são lampejos que não se configuram como a regra e que podem ser apropriados de formas diversas em relações de poder, nem sempre produzindo deslocamentos efetivos”.

Para ler o artigo: https://doi.org/10.1590/0103-3352.2025.44.280252

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).

“Se existe o nome, existe o bicho”: a história do colonialismo digital

por Fabricio Solagna em 21 de agosto de 2025, Comentários desativados em “Se existe o nome, existe o bicho”: a história do colonialismo digital

A crítica sobre o poder das big techs e seus efeitos econômicos, políticos e sociais tem se tornado cada vez mais presente nas pesquisas acadêmicas. O termo “colonialismo digital” é um conceito chave para compreender as transformações atuais, principalmente no Sul Global.

Toussaint Nothias, da Universidade de Nova York, propõe uma análise histórica do conceito e de suas variantes como tecnocolonialismo, colonialismo tecnológico, colonialismo de dados, entre outros, presentes desde as disciplinas de humanidades até a ciência da computação. No recente artigo “An intellectual history of digital colonialism”, publicado no Jornal of Communication, ele revisa os precedentes e o papel do ativismo na popularização destes termos.

Imagem gerada por inteligência artificial generativa utilizando palavras-chave: colonialismo digital

O autor destaca seis características que orbitam as concepções do colonialismo de novo tipo na era digital. Nas suas palavras:

A crítica do colonialismo digital tem como alvo o sistema social onde alguns atores-chave, por meio de tecnologias digitais, operam em escala global (concentração desigual de poder) e extraem lucros, dados, trabalho e recursos naturais (extração); garantem a dependência de seus produtos enquanto reproduzem, aceleram ou até mesmo criam novas formas de violência e impõem normas e valores culturais distintos (imperialismo cultural) em nome do progresso e inclusão digital como ajuda humanitária (benevolência).

São aspectos abrangentes que, ao mesmo tempo, se complementam na capacidade explicativa do desenvolvimento do capitalismo informacional plataformizado das últimas décadas, formando uma tipologia do colonialismo digital. Particularmente o Nothias traz referências de autores que se tornaram reconhecidos por desenvolver conceitos específicos. Ou seja, o trabalho apresenta um mapa, sem pretensão de ser exaustivo, do desenvolvimento teórico sobre o assunto.

Mas outro ponto importante abordado no trabalho é a historicidade desse tipo de crítica. Ela não é exatamente recente, ainda que tenha se tornado mais evidente nos últimos anos. Nothias resgata os seus precedentes e precursores.

Em 1976, o Movimento dos Países Não Alinhados lançou uma proposta para uma “Nova Ordem Internacional da Informação”. Naquele momento, se considerou necessário fazer uma ofensiva de decolonização na “história das ideias”.

Na década de 1980, desenvolveu-se o conceito de um “colonialismo eletrônico”, focado na dependência da infraestrutura dos meios de comunicação nos países periféricos.

Ao mesmo tempo, houve o surgimento da corrente de pensamento crítica ao desenvolvimentismo, principalmente na antropologia, que via na tecnologia um instrumento para a hegemonia dos valores ocidentais. A crítica pós-desenvolvimentista argumenta que a teoria do desenvolvimento era uma ideologia política que trabalhava com a ideia de modernização a partir de pressupostos elaborados pelos países dominantes.

Porém, nos anos 1990, houve a ascensão da perspectiva positiva e salvacionista das tecnologias digitais, principalmente com a expansão do uso da Internet e com as supostas potencialidades de uma comunicação mais horizontal e democratizante. Esse pensamento perdurou até a evidente monopolização da rede pelas big techs.

Além dos estudos acadêmicos, o pesquisador Toussaint Nothias destaca a importância do ativismo para popularizar o termo colonialismo digital em casos como os protestos dos indianos frente ao Internet.org, projeto do Facebook que pretendia para levar acesso “gratuito” – mas limitado a poucas plataformas – e que ganhou atenção global. Quando o projeto foi renomeado para “Free Basics”, na África, recebeu uma nova onda de críticas contundentes por ativistas e entidades da sociedade civil.

Poderia ser acrescentado o movimento software livre que teve sua efervescência na virada do século na América Latina. Em 2002, no Peru, houve uma proposta de lei para facilitar a adoção de software livre na administração pública. O caso se tornou notório, pois a Microsoft encaminhou uma carta para o seu proponente, o deputado Edgar Villanueva Nuñez. Ele respondeu publicamente os argumentos apresentados pela multinacional de forma eloquente. Naquele momento já existia a preocupação sobre o processamento e manipulação de dados pessoais e a necessidade de se construir autonomia frente às soluções tecnológicas estrangeiras. Em 2003 o Brasil também iniciou um processo de adoção de softwares livres no Governo Federal, que se tornou reconhecido mundialmente, principalmente depois que a mesma Microsoft criticou publicamente as iniciativas.

O ativismo por direitos e soberania digital emergiu em diversos países, por meio de uma teia de colaboração entre movimentos sociais e organizações do terceiro setor. Muitos desses militantes também circulam na academia e seus trabalhos também inspiram e são referência para outros pesquisadores. Tudo isso coloca mais combustível no desenvolvimento da crítica acadêmica. Para além dos termos inicialmente tratados por Nothias, há uma nova seara de conceitos sendo cotidianamente propostos como “criptocolonialidade”, “colonialidade de plataforama” ou “IA Decolonial”, apenas para citar alguns exemplos.

Trabalhos de síntese tem uma grande importância para situar obras, autores, fatos e trilhar caminhos de como conceitos potentes como o colonialismo digital nasceram e se desenvolveram.

A importância do conceito está na sua capacidade de diagnosticar os conflitos atuais que transpassam tecnologia, poder e cultura e traduz a síntese popular que “se existe o nome, existe o bicho”.

Para ler o artigo: https://doi.org/10.1093/joc/jqaf003

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).

No Douyn, o Tiktok “chinês”, criadores de conteúdos compram tráfego e negociam com os anunciantes

por Fabricio Solagna em 5 de agosto de 2025, Comentários desativados em No Douyn, o Tiktok “chinês”, criadores de conteúdos compram tráfego e negociam com os anunciantes

Utilizado por mais de 750 milhões de pessoas na China e pouco conhecido no ocidente, o Douyin é o irmão gêmeo do TikTok, uma plataforma de vídeos curtos criado pela mesma empresa, a ByteDance.

Seu sucesso local estrondoso também revela uma plataforma robusta para os chamados criadores de conteúdo – pessoas que produzem vídeos a fim de conseguir retorno financeiro. A plataforma conecta anunciantes e criadores e intermedeia essa relação, embolsando um percentual do negócio como lucro. Uma das consequências é a transformação da criatividade em uma “linha de montagem” de conteúdos, que tende a uma padronização. A plataforma se utiliza das mesmas estratégias de seus concorrentes – e do próprio irmão Tiktok – para manter os usuários gastando horas rolando vídeos na timeline. O importante é impulsionar os negócios, já que é possível fazer compras com apenas alguns cliques. Talvez a grande diferença de big techs estadunidenses seja que as ferramentas de recompensas geram um pouco mais de previsibilidade no Douyin.

Imagem gerada por inteligência artificial generativa utilizando palavras-chave: China, IA, Douyn

É o que aponta um estudo de Yang Huang e WeiMing Ye, ambos da Universidade de Pequim, publicado na revista acadêmica Convergence: The International Journal of Research into New Media Technologies. O artigo, intitulado “‘Traffic rewards’, ‘algorithmic visibility’, and ‘advertiser satisfaction’: How Chinese short-video platforms cultivate creators in stages” relata uma pesquisa em profundidade com 19 criadores de conteúdo da plataforma. Os autores também utilizam um uma abordagem de análise passo a passo da interface e se aprofundam nos mecanismos subjacentes ao seu funcionamento a fim compreender as trajetórias pelas quais o usuário é levado na sua jornada de trabalho enquanto criador de conteúdo.

O Douyin proporciona alguns caminhos na tarefa de produzir maior visibilidade dos conteúdos. Para usuários iniciantes, além da trivial sugestão de hastags há um ambiente de negociação de tráfego: a ferramenta Dou+. Para garantir duas mil visualizações a mais na publicação, o custo gira em torno de quatro dólares, por exemplo.

Os criadores recentemente registrados recebem uma recompensa de tráfego da plataforma que serve, segundo os pesquisadores, para incutir uma ideia possibilidade de receita a partir da produção ajustada às demandas definidas pelo algoritmo. No entanto, a maioria dos entrevistados relata que o tráfego inicial vai diminuindo após alguns meses e outras estratégias são ofertadas. Ao que tudo indica, o maior desafio não é exatamente a criatividade ou originalidade, mas ser capaz de seguir um modelo de conteúdo recompensado pelas regras da plataforma. Há, inclusive, um “Centro de Aprendizagem para Criadores” em que as pessoas são incentivadas a entender como melhor tirar proveito das características do serviço. É uma forma de moldar ou “cultivar” os criadores de conteúdos em alguns passos, dizem Huang e Ye.

Para usuários com mais de 10 mil seguidores é oferecida a ferramenta Start-Chart. É o mediador das transações entre anunciantes e criadores. Os anunciantes podem publicar pedidos para publicidade com instruções específicas. Também deixam claro o alcance mínimo de público que estão esperando, por meio de indicadores como visualizações, compartilhamentos etc.

Depois do aceite mútuo entre criadores e anunciantes, o sistema permite que os criadores enviem o roteiro do vídeo. A Douyin examinará o conteúdo com base no seu sistema de moderação e os anunciantes poderão verificar se a peça atende ao pedido. Pode haver até duas rodadas de aprovação, se necessário, e o vídeo só será publicado quando atender as necessidades do anunciante e as diretrizes da plataforma.

Se a tarefa for concluída com sucesso, o criador receberá o pagamento e a plataforma receberá uma comissão de 10%. Os anunciantes poderão acompanhar o desempenho das métricas ao longo da campanha. Um vídeo com 500 mil visualizações pode ser recompensado com um valor em torno de 800 dólares.

Os criadores de conteúdo acreditam que o Star-Chart é uma ferramenta que estabiliza o processo de transformação de criatividade em receita, que traz algum nível de transparência no jogo e que tornam os ganhos financeiros previsíveis ao longo do tempo do trabalho. Ao mesmo tempo, os pesquisadores também perceberam que há uma percepção dos criadores em que eles se consideram “caçadores de recompensas”, tendo que navegar entre os pedidos, agradar os anunciantes e a plataforma.

Assim, o Star-Chart pode ser considerado um espaço de uma troca bem-sucedida entre criadores ávidos por receita, anunciantes e o Douyin, onde ambos os lados parecem reduzir o efeito da incerteza.

Para os criadores de conteúdo, o impacto de suas criações depende muito menos dos seus seguidores e muito mais do atendimento às regras da plataforma. A pergunta “quantas pessoas vão curtir meu conteúdo?” está sendo gradualmente substituída por “como posso ser visto pela plataforma?”, segundo os resultados da pesquisa.

A produção de conteúdo se torna uma linha de montagem e não seria muito diferente do processo de trabalho dos entregadores, sugerem os pesquisadores, dando destaque ao caráter repetitivo para atender às demandas dos anunciantes. Além disso, a expressão individual e a criatividade fica subsumida à necessidade de vender algum produto ou promover alguma marca. Alguns dos entrevistados relataram que preferem não publicar vídeos pessoais, pois estão focados no trabalho de produzir as publicidades.

O sucesso do Douyin se deve também a práticas utilizadas em plataformas similares, como o TikTok. A recaligragem dos algoritmos por meio da coleta em massa de dados dos usuários é parte fundamental, ou seja, a vigilância é parte estruturante do modelo de negócio, mesmo que a ferramenta seja do Sul Global.

Para ler o artigo: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/13548565231211117

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).

Sistema de identificação biométrica da Índia faz elo entre passado colonial e nacionalismo tecno-cultural

por Fabricio Solagna em 28 de julho de 2025, Comentários desativados em Sistema de identificação biométrica da Índia faz elo entre passado colonial e nacionalismo tecno-cultural

Usar as digitais como identidade na Índia não é algo novo, e remonta ao início do século passado. Já o Aadhaar, atual sistema de identidade digital, é talvez a maior experiência mundial de uso de tecnologias para identificação e reconhecimento de pessoas em diferentes níveis, integrando identidade civil, assinatura digital, autenticação bancária, entre outros. É elogiado pela ONU e pelo setor financeiro pela capacidade de inclusão de milhares de pessoas e por ser supostamente mais seguro.

Imagem gerada por inteligência artificial generativa utilizando palavras-chave: Índia, IA, reconhecimento biométrico, colonialismo digital

Entretanto, alimenta também uma narrativa de “nacionalismo tecno-cultural”, ainda que opere com uma lógica semelhante à dos sistemas do Norte Global. Há diversas preocupações sobre vigilância e controle, como esse sistema pode aprofundar outros tipos de exclusões ou repetir formas de colonialismo em processos de datificação.

O governo indiano promove um discurso contra a colonização de dados para afastar players estrangeiros e promover soluções locais – como o RuPay – como um serviço nacional. Isso seria um meio de produzir um sistema de extração de dados com base num ethos nacionalista.

Kavita Dattani, professora na Universidade de Washington em Seatle, afirma que o sistema reencena tendências coloniais do passado por meio de novos atores e mecanismos. Ela estuda a relação entre o Estado indiano, entidades corporativas e as fintechs que trabalham para promover – e até coagir – a população para uma financeirização digital obrigatória.

Ela publicou sua pesquisa no periódico Journal of Cultural Economy, no artigo intitulado “Spectrally shape-shifting: biometrics, fintech and the corporate-state in India”. Como metodologia, utilizou uma perspectiva hauntológica – de haunted, assombrado — para compreender como os fantasmas do passado colonial estão ressurgindo nestas novas tecnologias. Segundo ela, a pesquisa se utiliza de lentes anticoloniais.

É importante compreender como funciona o Adahar e a infraestrutura de software construída sobre ele, o India Stack, bem como a cronologia de sua implantação ao longo dos últimos anos.

O Adahar foi concebido pela Unique Identification Authority of India (UIDAI), uma autoridade governamental estabelecida em 2009, com o objetivo de criar um número de identificação única com 12 dígitos, biometricamente verificável, para todos os residentes da Índia. A biometria inclui a digitalização de impressões digitais, da íris e do rostofotografia, armazenadas em uma base de dados nacional e centralizada.

O India Stack é uma infraestrutura de software construída sobre a base de dados do Aadhaar, que funciona a partir de várias aplicações que se interconectam (APIs). Ele foi construído pela iSPIRT, um think tank digital ligado a um grupo consultivo governamental, composto por profissionais da indústria de software, que realizam esse trabalho de forma voluntária, como intuito de construir “bens públicos”.

O objetivo foi oferecer uma infraestrutura para facilitar a prestação de serviços sem presença, com capacidade de verificar autenticidade e eliminar a circulação de dinheiro. Por exemplo, o Digilocker armazena registros de saúde, o e-Sign permite a assinatura de documentos e o Unified Payments Interface (UPI) permite que os titulares de contas bancárias enviem dinheiro instantaneamente a partir dos seus smartphones, similar ao PIX brasileiro.

Embora a adesão ao Adhaar fosse opcional nos seus anos iniciais, foi gradualmente tornando-se obrigatório tanto para o setor privado – na obtenção de crédito, na verificação de identidade, por exemplo – como para o governo – para obtenção de benefícios ou acessar políticas públicas. Uma das justificativas para a adesão em massa ao Adhaar era o combate aos benefícios falsos ou duplicados. No entanto, a pesquisa mostra que os números apresentados eram exagerados, ainda que houvesse um pequeno percentual de falhas.

Em 2014, um programa nacional de inclusão financeira incentivou a abertura de milhares de contas bancárias, impulsionando o uso do cartão RuPay – uma alternativa indiana às bandeiras internacionais. Em 2016, a retirada de circulação repentina de notas de 500 e 1000 rupias forçou milhões de pessoas a usar as contas bancárias para trocar suas notas antigas e receber seus valores equivalentes, elevando o número das transações digitais. E finalmente, em 2017, o governo obrigou o pagamento de salários por transferências bancárias. Essas iniciativas empurraram a população indiana para uma financeirização em massa com a intermediação do Adhaar e do India Stack.

A Índia se tornou um grande terreno de testes para o uso da biometria no Sul Global. O sucesso da implantação do Adhaar tornou a experiência referência, recomendada por agências internacionais e replicadas em programas como o ID4Africa, por exemplo. Segundo a autora do estudo, é assim que o fantasma colonialista se reconstrói, pois adquire uma nova roupagem sob a justificativa que esses territórios seriam mais propensos a fraudes ou falsificações, precisando de uma tecnologia salvacionista.

Ao mesmo tempo, Adhaar e o India Stack estabelecem as condições para um “Estado de vigilância”, desestabilizando o equilíbrio de poder entre o cidadão e o Estado. A pesquisa cita casos em que o sistema de biometria foi supostamente utilizado para facilitar a exclusão de muçulmanos — com histórico de perseguição pelo atual governo — do acesso a determinadas políticas públicas.

Mas, além disso, uma das questões mais preocupantes é o caráter de “porta giratória” que funciona entre as agências governamentais relacionadas com o Adhaar, os executivos que trabalham “voluntariamente” no iSPIRT, e as fintechs que orbitam os serviços financeiros. Os especialistas e tecnocratas transitam entre os cargos do setor público e do setor privado, criando potenciais conflitos de interesse, segundo Dattani.

Uma das figuras centrais é o arquiteto do sistema, o bilionário Nandan Nilekani. Ele já foi presidente da agência que desenhou o Adhaar, o UIDAI. Srikanth Nadhamuni é CEO da Khosla Labs e ex-chefe de tecnologia da UIDAI. A National Payments Corporation of India é uma corporação conjunta do Reserve Bank of India e da Indian Banks Association, responsável por desenvolver o UPI do India Stack e vários dos seus executivos também já transitaram entre cargos públicos relacionados ao Adhaar. Há, portanto, uma apropriação de uma parte do Estado indiano por uma tecno-elite, que promove suas políticas, tecnologias e empreendimentos.

Atualmente o Adhaar também é vinculado aos dados de saúde pública, o que tem gerado preocupação sobre o acesso e controle de dados sensíveis da população por esse aparato tecnoburocrático, como o controle da vacinação, envolvendo startups privadas, para além dos órgãos governamentais oficiais.

O que Dattani conclui é que o complexo fintech-filantropia-desenvolvimento opera o Aadhaar e o India Stack como um meio de negócio, embora sejam defendidos como serviços públicos. O governo e os atores da indústria afirmam que os dados são uma ferramenta para empoderar os cidadãos, como uma iniciativa de desenvolvimento. Os criadores do India Stack, posicionam-se como voluntários do mundo da tecnologia, criando bens públicos, supostamente gratuitos. Ao fim, o arranjo produz valor através da datificação, financeirização e monetização de um imenso volume populacional.

A pesquisa mostra como o processo muda a relação das pessoas com o Estado e com suas políticas públicas, tendo agora como intermediador um novo aparato digital e tecnocrático. Aponta também como as narrativas e discursos em prol da eficiência podem ser mobilizadas para promover uma tecnoelite e, por fim, como a ideia de empoderamento e nacionalismo pode ser utilizada para construir uma reserva de mercado para certos atores específicos.

Para ler o artigo: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/17530350.2023.2176340

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).

Luta de gigantes: a brutal distância entre o Norte e Sul nos investimentos para IAs

por Fabricio Solagna em 18 de julho de 2025, Comentários desativados em Luta de gigantes: a brutal distância entre o Norte e Sul nos investimentos para IAs

Uma forma de entender a periferia, a base, é olhar para o topo da pirâmide, onde estão e como se comportam os fluxos dos investimentos dos mais ricos. Nesse aspecto, os venture capital são um indicador de onde estão correndo os rios do ecossistema digital global. Portanto, olhar para as duas grandes potências – EUA e China – e suas maiores empresas e respectivos investimentos em IAs pode fornecer um termômetro como está a relação entre centro e periferia.

Imagem gerada por inteligência artificial generativa utilizando palavras-chave: EUA, China, capital flows, IA

Um bom lugar para verificar isso é a Crunchbase, uma plataforma que fornece informações sobre investimento de empresas, de propriedade da TechCrunch. Foi isso que fizeram os pesquisadores Bruno Prado Prates, doutorando em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Tulio Chiarini, vinculado ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Eles se concentraram em entender grandes investimentos de capital de risco (os tais venture capital) das grandes empresas de tecnologia dos EUA e da China.

Os resultados do estudo foram publicados no artigo intitulado “Dependência na Era Digital: um ensaio sobre a divisão centro-periferia em Inteligência Artificial”, disponível no periódico Liinc em Revista, na edição especial que trata de questões de IA e soberania.

O artigo demonstra que, enquanto as maiores big techs dos EUA e China investem pesadamente em IA e setores estratégicos como software, saúde e e-commerce nos seus respectivos países, para América Latina e África sobram alguns investimentos em setores mais tradicionais como o financeiro e comercial, com desenvolvimento limitado de IA. Essa assimetria aprofunda a dependência tecnológica dos países periféricos e perpetua padrões desiguais de inovação global, segundo os autores.

Ao mesmo tempo, as big techs norte-americanas investem pesadamente no mercado interno, enquanto as chinesas direcionam uma parte importante dos seus recursos – cerca de 40% – para os EUA. Uma parte da explicação é que empresas fortes chinesas como Tencent e Alibaba estabeleceram centros de pesquisa e desenvolvimento nos EUA.

É impressionante perceber que nenhuma empresa de IA na América Latina foi alvo de investimento de big techs e, ao mesmo tempo, quando há alguma aquisição é para uma estratégia extração de dados, como foi o caso da compra do Peixe Urbano pela Baidu. Um caso à parte é a Índia, que tem atraído mais da metade dos investimentos IA em relação ao resto dos países do Sul Global.

Os autores utilizam a perspectiva de centro-periferia de Celso Furtado para analisar e explicar a reorganização economica na Era Digital. Por esse olhar, a divisão internacional do trabalho se manifestaria entre países centrais, que apropriariam a maior parte do progresso tecnológico, e países periféricos, onde esse progresso beneficiaria amplamente os primeiros. O subdesenvolvimento não seria apenas uma etapa, mas como uma configuração que se reproduz a distintos níveis do crescimento, inclusive na área cultural e tecnológica. Os países periféricos assimilariam padrões culturais dos centrais sem a correspondente transformação social, perpetuando assim seu subdesenvolvimento. A escassez de capital de risco para empresas de IA nos países marginais refletiria esta ausência de desenvolvimento endógeno dessas tecnologias. Ao mesmo tempo, ocorre uma “sofisticação imitativa dos padrões de consumo” das economias centrais, reforçando sua dependência.

“Essa assimetria expõe um cenário de inovação desigual entre o centro e a periferia no contexto global da Era Digital. Embora a difusão da IA seja um fenômeno global, os padrões de investimento revelam disparidades regionais profundas, criando obstáculos para o desenvolvimento de trajetórias tecnológicas autônomas nos países periféricos. A perspectiva centro-periferia é uma abordagem valiosa para compreender a soberania em IA, evidenciando a contradição entre desenvolvimento e subdesenvolvimento. Essa visão permite identificar possíveis caminhos para que países periféricos se insiram na economia digital de forma mais soberana e menos dependente.”

O estudo de Prates e Chiarini tem suas limitações e eles mesmos fazem esse alerta. A principal é que há um certo viés da plataforma Chrunchbase por disponibilizar somente dados de um conjunto de empresas. É uma fotografia, uma amostra, mas não a totalidade. A outra característica que atrapalha é a impossibilidade de acessar os “valores exatos que cada plataforma digital investe em empresas ao redor do mundo”, ressaltam. Ainda assim, a análise apresenta uma ótima forma de verificar como os investimentos das principais empresas são direcionados, permitindo refletir como há uma grande diferença quantitativa e qualitativa dos recursos direcionados para a periferia, ou o Sul Global.

Link para o artigo: https://doi.org/10.18617/liinc.v20i2.7305

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, financiado pela Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade e realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo